Noite escura – Fim E. J. C. King

Olhei a cena e me senti nauseada. Em mil vidas não esqueceria o cheiro daquele corpo. A cabeça aberta e toda aquela gosma escorrida, pegajosa e fedida pelo chão e em volta da pedra. Aquela moça não aparentava ter mais de vinte anos. O rosto dos mortos sempre me parecia frio e eu encarava como se eles estivessem dormindo, porém, dava para notar o pavor final que ela vivera. Sua língua fora cortada, pregada na parede logo acima do corpo. Alguém havia escrito não procure tanto por mim, em letras de sangue.

Senti o medo brotando em cada célula que possuía, vendo aquele corpo frio, verde, rasgado. Ela descobrira algo, mas não poderia falar o que era. O trabalho era meu, descobrir o que acontecera com o casal da semana passada, com essa moça e o que me deixava preocupada era se meu fim seria o mesmo que tivera a jovem em minha frente.

Paagman havia ligado mais cedo e deixado recado com a secretária, não iria estar comigo por esses dias. Sem explicações ele desligou na cara da doce Norman e cá estou eu, trabalhado sozinha mais uma vez. Surpreende-me, ele ter estado na casa daqueles loucos degolados naquela manhã.

Mãos a obra. Tirei a língua crucificada na parede e a coloquei no saquinho de evidências. Fotografei a cena, detalhe por detalhe.

Minha concentração foi atrapalhada por um pintinho que entrou pela porta do celeiro. Caminhei em sua direção para afastá-lo do local. A menina da fazenda chegou correndo para pegar seu bichinho. Ao parar na porta, começou a chorar desesperada, tentei não deixá-la ver a moça. Mas, crianças quando vemos, já estão onde não devem. A mãe que estava logo atrás a pegou no colo e por baixo do pé da menina estava sangrando. Perguntei se estava tudo bem e fui ignorada.

Voltei ao trabalho e continuei de onde havia parado. Ante de me retirar, perguntei ao dono do local se ele poderia me dizer algo que pudesse ajudar. Nada de útil, a mesma informação que dera mais cedo quando ligara. Chegou de viagem noite passada e pela manhã quando iria dar início ao trabalho do dia, encontrou a moça em sua propriedade. Despedi-me e desejei melhoras para a filha que estava machucada. Ele agradeceu e saciando minha curiosidade sobre a criança, disse que devia ter se machucado com agulha ou algo do tipo. Sua mãe costurava e na certa a menina havia pegado dela e se machucado. Crianças são crianças.

Levei as amostras que colhi para o laboratório e agora precisava esperar. A tarde estava quente, o telefone não parava. Eram fofocas e pedidos de socorro por todos os lados, noticias de sempre e outras que me causavam certa graça. Brigas de jovens bêbados em bar. O gato da senhora no final da rua H, em cima da árvore que subia quase sempre, mas não sabia descer. Mulher espancando amante ao descobrir que o marido havia sido infiel. Atropelamento de algum desorientado. Um homem bêbado que sempre batia na mulher, deu com uma panela na cabeça da esposa e pensando que a tinha matado, se enforcou. Ela um tempo depois acordou e o encontrou morto, ligou o gás e por pouco não se uniu a ele na pós-morte. Fora encontrada pela vizinha caída na beirada da porta e minutos depois uma ambulância a levou para o pronto-socorro. O filho do vizinho da velha das rosas, caído no chão com o joelho sangrando por tentar andar de bicicleta sem rodinhas, pela centésima vez. Ele já estava cerca de um mês tentando. Por aí foi àquela tarde linda de verão.

Entrei em casa, e aquele silêncio da noite me acolheu. Fui para o sofá, me esparramei. Liguei a TV, abri uma cerveja e terminei de assistir um episódio que deixara pela metade. Iniciei em uma cena na qual o menino que sofria de transtorno dissociativo de identidade, havia acabado de matar a mãe. Achei pesado, bem pesado. Já esperava umas loucuras daquele magrelo retardado, mas isso me causou indignação. Sempre fui do tipo que sofre e se apega em personagens de série. Decidi para de ver a série para sempre, mas antes pude me deliciar com Romero (o xerife e agora viúvo) ameaçando aquele pedaço de bosta.

Acordei com o telefone tocando. Estava sendo solicitada por meu chefe. Menos de vinte minutos estava fazendo o sinal da cruz antes de cruzar a porta da sala do comandante. Ele queria explicações. De sua boca voava palavras doces como incompetente e monte de esterco.

O monte de esterco saiu da sala com a bunda suando e sentou-se em sua cadeira. Tomou uma xícara de café ralo e ficou fritando o cérebro até que o laboratório mandasse os resultados da coleta que havia feito.

Final do dia e fiquei sem entender como que não havia nada nas possíveis provas. Era o trabalho de um profissional, estuprador e amante da degolação. Duas mulheres estupradas, um homem gordo nadando em sangue e a única coisa que tinham em comum, eram as degolações. Havia descartado o possível assassinato cometido pela mulher, não fora encontrado nenhum DNA dela, nele. No corpo dela, nenhum havia vestígio dele. Ainda tinha a jovem desconhecida, sem língua.

Liguei para Paagman, puta, queria satisfações. No meio desse caos e a alteza fazendo Deus sabe o quê. Ele deu a palavra que no dia seguinte estaria de pé em minha sala desvendando todos os três crimes. Desliguei e fui para casa. Mais um dia perdido.

Acordei por volta das quatro da manhã, novamente aquele sonho. Eram demônios dançando, ouvindo rock e bebendo sangue de virgens. Desde garota tenho esses sonhos. No início mijava na roupa. Na adolescência escrevia contos de terror, agora com todas essas merdas que ando vivendo, os encaro como comédia e um momento normal no meio de tantos crimes. Antes mesmo de levantar para beber água ouvi um barulho no térreo, peguei a arma que estava em cima de um livro que tinha terminado de ler, Cemitério Stephen King. Desci as escadas e olhei na cozinha e não tinha nada, na sala a janela estava aberta e a cortinha vermelha cafona que eu possuía desde sempre voava com o vento. Na certa, algum gato malando entrou para roubar comida. Forcei o trinco da janela para fechar, ele estava com um problema. Senti uma pancada na cabeça.

Acordei no hospital dois dias depois. Estava com soro no braço. O corpo dolorido e com hematomas por toda a parte. Sentia que havia sido atropelada. A enfermeira que entrou no quarto me olhou com alegria e disse que iria chamar o comandante. Ele esteve lá durante todo o tempo que estive inconsciente. Entrou dizendo se sentir aliviado e que ficou como meu protetor no lugar de qualquer pessoa do departamento. Eu havia sido espancada e quase morrera. Se não tivessem me encontrado a tempo (o gás aberto e eu desmaiada), seria o fim da linha para mim. Uma semana depois que já estava em casa e me sentindo melhor, voltei ao trabalho.

Sentei em minha mesa no final de uma quarta-feira, olhei para os mimos que ali estavam. Bombom. Flor. Cartão, e até balão. Senti-me querida por meus colegas. Por falar em colegas aquele arrogante estava caminhando em direção à minha sala. Entrou com sorriso no rosto.

— Olha o que temos aqui. A Cinderela está de volta! — Disse com ar de deboche. Odiava aquilo nele. Revirei os olhos e continuei escutando ele se gabar.

— Como eu disse, a mulher matou o marido. Ponto meu! A moça, não havia prova, final de ano chegando, o caso foi arquivado. Enquanto isso, a Cinderela dormindo ou eu diria Bela Adormecida? Pois bem! Pelo que eu soube, em seu bairro tem muitos drogados, algum deles pegou pesado com você, mas não se preocupe. Iremos descobrir quem foi o covarde e ele vai pagar.

Senti uma raiva subindo pela cabeça, eu sabia que a mulher não havia assassinado o marido e não aguentando de nojo daquela arrogante que provavelmente havia feito algo para ser quem solucionou o caso, ignorando os fatos, me coloquei a falar.

— Escuta aqui, seu filho da puta. Aquela mulher não…

— Olha que balão vermelho bonito. Vou estourar em homenagem a minha mãe que estourava os meus. Ué! Cadê o alfinete que uso para prender o botão da minha camisa?

Meu corpo gelou, a menina da fazendo com o pé machucado…

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