Noite escura – Parte 2 E. J. C. King

Meu estômago se revirou ao ver aquela cena logo pela manhã. O homem que aparentava seus cinquenta anos, deitado sobre seu sangue, degolado e com perfurações de faca na barriga. A barba estava um nojo, suas roupas eram velhas, assim como a casa.

O quarto escuro fedia a mofo, urina, bebida velha e cadáver. Era a definição de entulho. Havia uma lamparina pelo chão ao lado do outro corpo e um penico que antes cheio, agora vazio e tombado. Não pude deixar de notar a cadeira velha no canto esquerdo do quarto. Uma toalha amarela de sujeira se encontrava jogada em cima da mesa que possuía uma bacia com água. Aquela imagem me remeteu o cotidiano dos antigos, os que moravam em roça sem energia elétrica e conforto. Eles se refrescavam antes a noite, e tinham aqueles que eram porcos e preguiçosos demais para tomar banho antes de dormir. O homem, além de não prestar, tinha um gosto pela miséria, e nem era por falta de condição. Porem, ao que remetia a esposa não fazia esforço algum. Para a pobre que lhe servia como objeto para ser usada e empregada qualquer coisa devia servir.

Notei que meu parceiro estava entrando pelo ranger do piso velho de madeira. Eu não entendia o motivo de casas de madeiras serem construídas em pleno ano de 2019. Ele entrou e analisou a cena com calma e um quê de desprezo. Primeiro olhou o homem, não perdeu mais de dez segundo. O que lhe chamou atenção foi a mulher no chão. Talvez por estar com algumas partes consideradas importantes do corpo descobertas. Ela estava com a blusa rasgada, com um dos seis caídos para o lado. Notei ele descer o olhar para onde a saia estava levantada, a calcinha na lateral esquerda rasgada e se mantendo no corpo apenas presa pela coxa direita. O corpo apresentava corte no pulso, sinais de agressão, o pescoço com marcas de estrangulamento e os cabelos negros estavam nadando na poça de mijo do penico que estava ao lado tombado. Ele com o ar arrogante de sempre, disse.

— A cena mostra com clareza o que aconteceu aqui. Ele chegou bêbado, agrediu a coitada. Tentou estrangular, mas por estar muito tonto desistiu da ideia e seu desejo falou mais alto que sua raiva e então a estuprou. Ela no que lhe concerne já cansada de todas as humilhações (a fama dele não era das boas) o matou. Após isso abraçou a morte sem nenhum sinal de culpa. Viver naquelas condições já não lhe era desejada. Às vezes a morte é uma boa saída para quem já se encontra no fim da vida e ser ter vivido nada de bom nela. — Disse ele com um tom melódico. A pobre vivia apanhando, sendo humilhada. O marido passava suas noites em bares enchendo a cara com os amigos e com mulheres diferentes. Era um ser humano desprezível e bêbado que nada tinha de bom para oferecer. A pobre se contentava com algumas migalhas de madrugada, caso ele tivesse de bom humor e se lembrasse que tinha ao lado um objeto para descarregar o que não havia conseguido com as putas na rua. De nada adiantava ela esperar alguma mudança dele, ele já estava morto por dentro. Nada se deve esperar de alguém morto, nada tem de oferecer além de dor.

Eu o escutei. Procurei as melhores formas de lhe dizer o quanto ele parecia estar equivocado. A cena toda não aparentava em nada com o que ele havia dito. Ela não o matou. O principal motivo para tal conclusão era de que a suposta faca usada para assassinar o marido e cometer suicídio, não se encontrava no local. Outra coisa muito peculiar de toda aquela cena era que eu sentia em todo o corpo que algo de medonho acontecera ali. Nossa mente costuma acreditar mais no que parece estar na nossa frente e no que nos é dito, do que nos detalhes das coisas e temos o estúpido costume de ignorar o que nossos sentidos tentam nos mostrar.

Por trás do que ocorreu ali havia uma energia ruim. Parecia que o mal estava encarnado e a solta. Porem, a arrogância de Paagman o fazia cego. A necessidade em ser o dono da razão lhe dava um tom de idiota. Por dentro eu ria dele ao mesmo tempo me via sentindo uma pouco de pena. Antes de dizer qualquer coisa, notei que Paagman não tirava os olhos de Mary. Havia um brilho malicioso no olhar e mesmo que focado na mulher, ele parecia distante. Senti um arrepio na nuca e nesse momento que não estava nada agradável, a porta da sala bateu com o vento. Dei um pulo e pude sentir minha expressão de medo. Olhei para ele que se encontrava imóvel e sem notar o barulho que havia ocorrido.

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