Noite escura – E. J. C. KING

No momento em que ele adormecia. Toda noite a cena se repetia. Eu me levantava e caminhava até a cozinha, no meio da casa toda escura e silenciosa. Procurava fazer o máximo de silêncio, porém, por mais que caminhasse devagar o piso de madeira já velho rangia a cada passo.

Naquela noite pareciam estar mais velhos ainda. Eu notava que em alguns lugares que pisava parecia até que eram dois passos. Que casa caindo aos pedaços, odiava morar ali. A casa era velha, úmida, portas rangiam, iluminação era péssima. Aquele porco economizava até em velas. Como eu o odiava, mas dependendo dele eu acabava me sujeitando a tal situação. Os tempos eram difíceis. Eu não tinha ninguém. Ele, eu sabia que iria me matar. Certa vez, chegando bêbado em casa disse em uma explosão de ódio que iria me matar.

Ao chegar à cozinha, logo ao lado do portal ficava uma fruteira, era ali que eu deixava o isqueiro escondido, sempre no meio das bananas. Acendia e conseguia chegar até a gaveta onde estavam as facas, e as escondiam sempre. Naquela noite ao abrir a gaveta meu corpo gelou, elas não estavam ali. Sentia que ele havia premeditado tudo antes.

Meu medo tornou-se real. No entanto, eu sabia que ele estava dormindo pesado, o conhecia mais de quinze anos. Não estava fingindo. Talvez tenha se programado para hoje, mas o cansaço tomou conta de seu corpo e o desejo de dormir fora maior que o de acabar comigo.

Resolvi fugir enquanto ainda era tempo. Virei-me e de repente algo pulou em cima da mesa, meu coração saltou para fora. Acelerou tanto que a falta de ar me tomou por completa. Meu corpo cresceu com todo o arrepio de medo. Aquele demônio, com olhos amarelos, garras afiadas que destruía tudo que arranhava e de pelo ridículo me deu o maior susto. Demorei alguns poucos segundos para me convencer que havia sido o gato. Maldito gato.

Direcionei-me ao nosso quarto caminhando lentamente. Fiquei aliviada por não ter pisado nas mesmas madeiras de antes. Dessa vez o barulho dos passos havia diminuído. Caminhei por todo o corredor escuro. Ao seu final, toquei na porta devagar para que a mesma não fizesse rangidos assim como o chão. Notei que ela estava entre aberta, eu podia jurar que havia fechado. Passei por ela, fechei e depois de todo o susto com o gato e o pavor de descobrir que ele havia pegado as facas, sentei-me na beirada da cama para tomar um ar e pensar em um modo de pegar uma pequena mala no armário sem fazer barulho.

Eu precisava sair dali quanto antes. Aproveitar que ele estava dormindo. Se eu ficasse mais um dia, não sei o que seria de mim. Notei algo quente na cama ao sentar, coloquei a mão no colchão e ele estava molhado. Era o que me faltava, ele ter urinado. Se eu estivesse dormindo ali, estaria no meio da poça.

Peguei a lamparina que estava em cima do criado mudo e fui olhar a sujeira que aquele porco havia feito. A lamparina caiu no chão e eu não pude acreditar no que meus olhos viram. A cama escorria sangue para todos os lados. Ele degolado e seu corpo todo perfurado.

Eu tremia por completa. Não podia acreditar no que meus olhos viram. Ele ali morto daquela forma me apavorou. Preso na garganta meu grito saiu com toda a força. Após meu grito, ouvi quando a porta da sala bateu com uma força brutal. Havia passos pelo corredor em direção ao quarto, me virei para olhar a porta, ela rangendo se abriu lentamente…

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