Rir é do próprio homem

Gargântua e Pantagruel

Na obra de cinco volumes História de Gargântua e Pantagruel, François Rabelais cria um mundo de fantasias ao redor de dois gigantes e suas esposas. O texto inclui todos os elementos do humor folclórico medieval que teria sido familiar aos leitores contemporâneos – funções corporais, comportamento sexual grosseiro, partos e morte. Ricos em sátira, os contos também são movidos pela energia do humanismo renascentista que se espalhou pelo norte da Europa.

HumanismoNaquela época, “humanismo” tinha uma conotação diferente da que temos hoje, se referia ao ressurgimento do interesse pela sabedoria do mundo clássico. 

Naquela época, a educação havia evoluído às cegas, seguindo a tradição escolástica limitada da Igreja; o grande ímpeto humanista foi criar um programa completo de educação, que incluía filosofia, gramática, poesia, história, grego e latim antigo.

Erudito e satírico

No limiar desse mundo que passa por rápidas mudanças, Rabelais encontra maneiras de incluir ideias humanistas em sua aventura sobre os gigantes. Ele primeiramente, atrai a atenção do leitor com humor e fantasia absurda.

No começo da história, o texto apresenta a visão de uma parteira da mãe em trabalho de parto, enquanto o bebê Gargântua se esforça para passar pelo corpo dela então nascer de sua orelha.

As façanhas, batalhas e missões de Gargântua e seu filho Pantangruel seguem em frente, ornamentadas com descrições de banquetes repletos de carne e pás cheias de mostarda lançadas em bocas cavernosas, peregrinos comidos com salada, bolsas para esconder o saco escrotal, exércitos vencidos por por um jato de urina e bolas de canhão que caem do cabelo de Gargântua depois de uma batalha.

Apesar de seu comportamento rude e extremo, Rabelais garante que os gigantes que criou ingressem facilmente no novo mundo do humanismo.

Em uma carta a seu filho, o velho gigante Gargântua faz uma comparação entre sua própria infância em tempos sombrios e a época atual, em que “a luz e dignidade foram recuperadas”

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Após a chegada da prensa na metade do século xv, pessoas comuns passaram a ler a Bíblia traduzida – e, pela primeira vez, tiveram acesso á palavra de Deus sem a mediação dos interesses da Igreja.

Embora fosse padre, Rabelais aproveitou a chance para satirizar o dogmatismo religioso. O guerreiro corajoso de Gargântua, frei João, recebe de presente a suntuosa abadia de Thélème, repleta de freiras ricamente vestidas e monges que se relacionam livremente. “Faça o que tu quiseres” é a palavra de ordem, assim como “todos nós nos envolvemos em coisas proibidas e ansiamos por coisas negadas”.

Espirituoso, irreverente e repleto de essência intelectual, nenhum outro romance é igual a história de Gargântua e Pantagruel. A obra tem sido celebrada por autores ao longo dos séculos e, mais recentemente, pelos escritores pós-modernos, que encontram muito a ser admirado a liberdade narrativa da grande obra de Rabelais. 

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