Dívida paga – E. J. C. King

Ela acordou novamente no meio da madrugada. Sentou na cama e em meio ao quarto escuro, respirou olhando para o nada. Sentia que precisava mudar algo, mas não sabia ao certo por onde começar. Afinal, ela nem sabia o que devia ser mudado. Se é que existia algo que realmente merecia mudança. Talvez não existisse nada que valesse a pena.

Ela se sentia assim após um grave acidente que sofrera. Algo mudou a forma como ela sentia as coisas e ela não sabia o que aconteceu depois do acidente. Levantou-se, e decidiu ir até a cozinha para beber água e então foi quando o viu.

No canto da copa entre a sala e a cozinha lá estava ele. Uma figura masculina, vestido com terno e em pé com seu cigarro na mão. Ela não sentiu medo. Havia tempos que não sentia nada. Nem mesmo o intruso misterioso lhe provocara algo. Antes mesmo de pensar em acender a luz. Ouviu quando ele lhe disse para permanecer com a luz apagada. A luz do quarto nos fundos clareava o suficiente.

Ele se virou para ela. Mas o pouco de claridade que estava no ambiente não lhe permitia ver com clareza o rosto dele. O som da voz dele pelo menos lhe indicava ser um homem já maduro. Assim pelo menos ela pensou.

Sem sair do lugar, ela apenas lhe perguntou quem era. O que estava fazendo ali e o que queria. Aconselhou também que se estivesse ali para roubar, matar ou o que for que um assaltante fosse fazer, para fazer o trabalho completo e aproveitar para matá-la. Assim pouparia o trabalho dela de ter que arrumar a bagunça. Ter que falar com a polícia. Essas coisas que geralmente são feitas após uma invasão.

Ele abriu um sorriso largo. No meio do escuro, seus dentes brancos ficaram com toda a atenção do momento. Deu alguns passos para perto dela e o perguntou o que ela queria. A única palavra que ele ouviu foi morrer. Então olhou fixamente dentro de seus olhos e disse que iria perguntar novamente.

– Diga-me. O que é que você deseja?

– Eu gostaria de ser feliz novamente. Ter esperança.

– Digam-me então como tem sido seus dias. Me entregue seu caos que serei seu cais.

Ela então se sentiu aliviada sem algum motivo aparente e começou dizendo sobre seus dias.

– O relógio despertou no mesmo horário de ontem e eu segui meus passos. Passei pala cafeteria, li umas páginas do meu livro enquanto bebia café, em seguida saí pela rua e encontrei a mesma senhora e o mesmo menino.

Depois de horas andando e olhando os muros pichados, parei em frente a um parque e pensei: “por que não entro?” Assim fiz.

Fiquei olhando atentamente as crianças enquanto corriam. Os animais passeando com seus donos… Era uma sensação boa, finalmente encontrei um pouco de felicidade. Pensei pelo menos.

De repente, o céu escureceu, as pessoas desapareceram e novamente fiquei sozinha. Senti alguém me puxando para um lugar que me assombrava, e eu corria; com toda a velocidade possível, sem olhar para trás.

Tropecei.

Senti meus pés cortados, estavam sangrando. Mas não era hora de reclamar da dor.

Corria e corria… Eu ouvia uma voz e quando mais ela chegava perto, mais minhas forças iam embora.

O mais insólito é que eu estava vivendo o mesmo dia há anos, não me restavam mais forças para acordar. Mas não era algo que estava no meu controle.

Logo após ela falar tudo ele lhe tomou pela mão. Caminhou até o quarto e a deitou na cama. Em pé ao lado dela abriu a camisa suavemente e olhando dentro de seus olhos disse que daria a ela o que ela merecia por tudo o que ela havia plantado em vida.

Ela se sentia diferente de antes, sentia que estava bem, olhava para ele e sentia que o olhar dele podia ver dentro de sua alma. Após tirar a camisa ele se deitou e acariciou todo o corpo dela que se manteve calmo e relaxado. Ela sentia um prazer que nunca sentira antes. Sentiu que estava viva novamente. Ele a possuiu de todas as formas possíveis e inimagináveis. Afinal, o era fácil um simples ato carnal com uma alma perdida para o senhor dos desejos e da luxúria. Ela delirou e se entregou tanto que nem notou que em alguns momentos o rosto dele que no início era sedutor, com olhos profundos, e barba bem cortada, mostrava sua real natureza. Um rosto deformado, queimado pelo fogo, olhos vermelhos e pesados com o vazio das trevas e carregado com toda a dor do inferno.

Após todo aquele momento de loucura e de entrega a um desconhecido, ela deitada ao seu lado lhe confessou que nunca havia se deitado com um completo estranho, menos ainda com alguém que invadira sua casa, como ele havia feito.

Ele sentou-se na cama, olhou-a profundamente e disse.

– O inferno é minha casa, eu não preciso invadir. Diferente do que os humanos dizem, eu possuo a chave. – sorriu maliciosamente e sussurrou em seu ouvido.

– Quando você vendeu sua alma a mim para obter sucesso naquela mesa de bar, já sabia o que lhe esperava. Eu lhe encontrei, lhe desejei o sucesso que você queria enquanto desabafei sobre meu pai. Sua vida desde aquela madrugada foi próspera e você teve tudo o que queria e até mais do que imaginava. Só que boas madrugadas não duram para sempre. Você apenas não se recorda do que está acontecendo agora. Ou melhor. Recorda-se, todas as madrugadas após as repetições de sempre. Acordar, sentar na cama, caminhar até a cozinha, me encontrar, choramingar e depois se entregar para mim. Confesso que para mim o melhor momento da sua tortura começa agora. Quando você se da conta de tudo.

Ela olhou para ele. Não acreditava no que estava ouvindo. Sentia medo, pavor, sentiu-se presa, sem esperança, fria, morta. Uma dor invadiu o meio de suas pernas, ao olhar pra baixo ela viu vários vermes andando nela, os sentia entrando e saindo de dentro de sua vagina e então ela começou a gritar e vomitar. Ela vomitava sangue e vermes. Palavras não podiam descrever o horror que ela sentia.

Ele olhou-a com brilho no olhar por horas enquanto aquele ciclo de gritos acompanhados por vômitos, vermes e lágrimas se repetia.

-Pronta para repetirmos? Estou ansioso. Espero-te na copa.

Ela acordou novamente no meio da madrugada…

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