Dívida feita – E. J. C. King

Meu relógio de pulso marcava 2:57. Eu vagava, estava perto da rua Valhala. Não sei o que me levou até lá, mas senti que algo me esperava ali.

Estava certa.

Encontrei um homem. Ele vestia terno e gravata. Usava chapéu. De altura devia ter 1.80 no mínimo. A medida que eu me aproximava, ele me encarava como se me conhecesse. Meu objetivo era segui direto e ignora-lo, mas ao passar por ele ou quase ele começou a falar.

– Estava te esperando.

– Eu? Quem é você?

– Sinto que irá me entender, li os textos que escreveu.

– Ainda não entendi. Que textos? Sabe quem sou?

– Veja, fui expulso de casa pelo meu pai.

– Mas o senhor, me perdoe, aparenta ter uma certa idade. Ainda na casa dos pais? Não quero ser intrometida, mas fiquei curiosa.

– Sim, tenho uma certa idade. Esse banimento tem muito tempo. Você nem existia.

– Entendo. Continue, por favor.

Ele havia me contado que se rebelou contra o próprio pai, não para ofendê-lo, no entanto, ele discordava de uma atitude de seu pai e isso foi considerado uma rebelião.

Ele continuou sua história…

– Meu pai é um criador, sabe? Ele já criou e continua criando muitas coisas, mas uma certa criação dele chamou atenção de todos seus filhos, incluindo eu, que era claramente o seu favorito. Ele ficou tão obcecado por ela que acabamos ficando em segundo plano. Eu nunca me senti triste por isso, entendia seu amor por ela. O que eu não entendi foi o motivo de ele deixar ela ser destruída.

– Destruída? Se era a criação favorita, qual foi o motivo?

– Mesmo depois de anos, ainda está para nascer alguém que consiga entender essa atitude de papai.

Ele suspirou e tirou do bolso um cigarro e um isqueiro, e logo após um sorriso meio de canto, acendeu. Enquanto isso notei que não sabia quem ele era.

– Qual seu nome?

– Pode me chamar de Luci.

– Prazer em conhece-lo, meu nome é…

Ele interrompeu dizendo meu nome. Antes que eu perguntasse como ele sabia, ele começou a desabafar sobre o pai. Contou-me que ele era autoritário e muito orgulhoso, nunca aceitou uma sugestão e que ninguém tinha coragem de questiona-lo. Até que ele o fez e daí veio o banimento.

– Mas enfim, preciso ir, vou encontrar papai, talvez a gente se resolva, nunca deixei de fazer nada que ele ordena, mesmo estando longe, fazemos muitos trabalhos juntos, só nos odiamos atrás das cortinas. Quanto a você, eu vim lhe desejar sucesso.

A esse ponto seu cigarro já estava no final. Ele foi embora virando a esquina e sumiu.

Engraçado, tive a impressão de que conhecia sua história. Naquela hora da madrugada, eu com sono não iria raciocinar bem. Como ele sabia meu nome, talvez eu soubesse mesmo sua história. Posso não me lembrar, mas talvez já tenha sentado com ele em alguma mesa de bar. Os bares andam cheios, não é de se assustar que depois de algumas doses de qualquer bebida cheia de álcool para esquecer a escuridão e o vazio no peito, eu trocar meia duzia de palavras com algum estranho. Deve ser isso.

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